Meredith Whittaker, presidente da Signal Foundation, tem se posicionado firmemente contra o alarmismo em torno da inteligência artificial (IA). Para ela, o receio de que essa tecnologia possa se voltar contra a humanidade carece de embasamento científico. “O risco é real, mas não se trata das narrativas fantásticas de alarmistas”, afirma Whittaker, que destaca a responsabilidade na utilização da IA como o verdadeiro ponto de preocupação.
Durante uma conversa com a BBC, Whittaker citou um incidente envolvendo um chatbot dos serviços de inteligência dos EUA que gerou informações errôneas sobre um navio chinês com material nuclear. “Quase entramos em guerra com a China por causa de um sistema que fornece dados imprecisos”, ressalta, evidenciando que a verdadeira ameaça pode não estar em uma IA superinteligente, mas na utilização irresponsável da tecnologia.
Embora o Signal, aplicativo de mensagens que promove a privacidade, tenha 40 a 70 milhões de usuários — um número bem inferior aos 3 bilhões do WhatsApp —, a plataforma se destaca pela segurança que oferece. Seus servidores não têm acesso à identidade dos usuários, limitando a coleta de dados por terceiros.
Whittaker se tornou uma referência no debate sobre IA, sendo reconhecida pela revista Time como uma das figuras mais influentes na área. Sua trajetória começou em 2006 no Google, onde, após descobrir o Projeto Maven em 2017, mobilizou cerca de 20 mil funcionários em um protesto contra o envolvimento da empresa em projetos militares de IA. Essa iniciativa resultou na rescisão do contrato por parte do Google, que foi assumido pela Palantir.
Recentemente, Whittaker associou o uso de tecnologias de IA ao ataque aéreo dos EUA contra uma escola no Irã, que resultou em tragédias por conta de informações equivocadas. A Palantir, por sua vez, se defendeu afirmando que não pode ser responsabilizada pelas decisões tomadas com base em dados falhos.
As discussões sobre a regulação de aplicativos de mensagens têm ganhado força, especialmente no Reino Unido, onde o governo busca maior controle sobre comunicações para proteger crianças. Whittaker, no entanto, vê isso como um passo perigoso para um sistema de vigilância sem precedentes. “Se for necessário comprometer a privacidade, o Signal pode deixar de operar em um país”, afirma com firmeza, defendendo princípios inegociáveis em relação à segurança dos usuários.
Ainda que reconheça os riscos da tecnologia, Whittaker acredita que a privacidade é essencial para proteger indivíduos vulneráveis, como mulheres em situações de abuso. “A privacidade é uma ferramenta de sobrevivência”, defende, apoiada por diversas organizações de direitos humanos.
Por fim, Whittaker aconselha as mulheres que desejam entrar na área de tecnologia a não se deixarem intimidar. “Se você ama o que faz, não deixe que o machismo a impeça. Enfrente os desafios com coragem e não se submeta à intimidação”, conclui, reforçando a importância de um ambiente inclusivo e respeitoso no setor tecnológico.



