A ascensão da inteligência artificial (IA) na indústria da moda não é apenas uma tendência passageira, mas uma transformação que promete redefinir o papel dos modelos e das agências. As marcas estão cada vez mais adotando tecnologias que permitem a criação de imagens realistas sem a necessidade de sessões fotográficas tradicionais, o que pode reduzir os custos em até 90% em relação ao uso de modelos humanos.
Entretanto, essa inovação traz consigo um dilema ético e profissional. Modelos enfrentam o risco de ver suas imagens reproduzidas sem compensação adequada ou, pior ainda, serem substituídos por avatares digitais que não requerem remuneração. Em busca de compreender o impacto dessa mudança, a Reuters consultou diretores de agências e analisou contratos confidenciais que revelam práticas preocupantes na forma como as marcas planejam usar a IA.
Entre as cláusulas encontradas, destacam-se permissões para a modificação da aparência de modelos, troca de rostos e a criação de “gêmeos digitais”. Algumas marcas, como Diesel e Calvin Klein, já estão explorando essas possibilidades, levantando questões sobre a propriedade da imagem e o consentimento dos profissionais envolvidos. Em um cenário em que a tecnologia avança rapidamente, a falta de regulamentação clara deixa os modelos vulneráveis a abusos.
Adot Gak, modelo que já participou de campanhas de grandes marcas, alertou para a diminuição das oportunidades de trabalho. Ele argumenta que, se a indústria não se manifestar, o futuro pode ser dominado por robôs, eliminando a necessidade de profissionais que trazem humanidade e diversidade ao setor. Enquanto marcas de moda rápida já se apressam em adotar modelos gerados por IA, as casas de luxo, como Moncler e Gucci, permanecem cautelosas, embora já tenham testado campanhas nessa linha.
Na prática, a IA permite que as empresas realizem alterações em imagens de forma quase ilimitada, tornando obsoletas as tradicionais sessões fotográficas. A Zalando, um dos maiores varejistas de moda online da Europa, é um exemplo de como a adoção de IA pode levar ao fechamento de estúdios e à eliminação de postos de trabalho. Apesar de manter alguns funcionários em novas funções, a transformação do setor é inegável.
Enquanto isso, o ambiente legal ainda está se adaptando a essa nova realidade. Nos Estados Unidos, a Lei dos Trabalhadores da Moda, que entrará em vigor em junho de 2025, visa proteger os direitos dos modelos, exigindo consentimento explícito para a criação de réplicas digitais. Essa legislação é um passo importante, mas há um clamor por iniciativas semelhantes em outros locais, uma vez que a exploração de imagens de modelos, potencializada pela IA, se torna uma preocupação crescente.
Com a evolução contínua da tecnologia, a necessidade de um diálogo robusto sobre os direitos dos modelos e o uso de inteligência artificial se torna cada vez mais urgente. Sem uma regulação eficaz, o futuro da profissão pode estar em risco, e o setor da moda pode se ver diante de uma nova era onde os humanos são substituídos por algoritmos, deixando um legado de exploração e desumanização.


